Considerações sobre o determinismo e livre-arbítrio para uma futura e distante ciência

Decidi escrever este post em português para evitar mal interpretações em algumas pequenas considerações sobre o determinismo e livre-arbítrio.

Bom, como maioria deve saber, o determinismo é a doutrina/pensamento que afirma que todos acontecimentos [efeito]  (inclusive nossas atitudes, escolhas, idéias) sejam causados por acontecimentos anteriores [causa]. Ela afirma que determinado acontecimento não poderia deixar de acontecer, visto que foi impulsionado por uma causa anterior, como por exemplo, uma esfera que for jogada para cima, ela irá subir e depois cair por efeito da gravidade, a causa da subida foi a força utilizada para jogá-la no ar e a causa da queda é a gravidade. Desta forma, o determinismo vê o universo interconectado por relações de causa e efeito.

Uma das implicações do determinismo, é que a nossa liberdade é uma ilusão, ou seja, quando escolhemos algo, estamos na verdade realizando uma escolha que não poderia ser de outra forma, visto que uma sucessão de eventos nos levou até este momento do tempo para que esta atitude, e não outra, fosse escolhida.

Esta doutrina é claramente óbvia no nosso universo, a natureza é absolutamente regida por leis físicas de causa e efeito, e o trabalho científico se baseia exatamente nessa premissa e em descobrir as relações de causa e efeito. Por outro lado, será que esta mesma doutrina se aplica aos nossos pensamentos ? Acredito que até hoje não há uma resposta satisfatória à esta questão, mas sabemos algo sobre algumas implicações em relações às duas possíveis respostas abaixo:

Primeira resposta possível: a lei da causalidade se estende até a esfera dos nossos pensamentos, nossas atitudes, escolhas são apenas uma ilusão e nosso cérebro é regido pelas mesmas leis que regem a natureza conhecida;

ou

Segunda resposta possível: a lei da causalidade não se estende à nossos pensamentos e nossas atitudes/escolhas são livres; a liberdade é possível;

Implicações da primeira idéia

Na primeira resposta à esta questão, temos a idéia de que este determinismo e a lei da causalidade se estende até nossos pensamentos, escolhas/atitudes.  Esta idéia por sua vez causaria várias implicações sobre como podemos ver a ciência e do que ela é possível, do que podemos criar.

Por exemplo, sabemos que nossos pensamentos são originários de nosso cérebro, sabemos também que nosso cérebro é regido por leis físicas de causa e efeito, sabemos também que nossos neurônios se comunicam utilizando sinapses e fracas descargas elétricas, impulsionadas por outras descargas elétricas, e assim por diante ad infinitum, então podemos deduzir uma sentença lógica e otimista sobre o que podemos criar em termos da imitação do cérebro na tecnologia em um futuro distante (ou próximo, quem vai saber ?): sabemos que se essa sentença for verdade, a de que o determinismo se estende até nossos pensamentos, poderemos criar em um futuro possível, um cérebro tão potente quanto o nosso. Isto pode parecer uma afirmação futurista, mas é mais do que isto, é uma inferência sobre nossas possibilidades, baseando-se na veracidade da sentença de um determinismo absoluto.

Essa sentença, que nos abre a possibilidade da criação de um cérebro tão potente quanto o nosso em um futuro distante, é sustentada pelo fato de que se não há nada de metafísico em nosso cérebro, o que nos impede de criarmos uma imitação dele através de uma abstração computacional ou de uma máquina real ? Tendo em mãos os recursos necessários para tal, o que nos impediria de construir um cérebro regido por leis físicas sem nenhuma metafísica ? Apesar da tamanha complexidade do nosso cérebro, seria apenas questão de tempo para descobrir a tecnologia necessária para tal empreendimento.

Enfim, esta é apenas uma das implicações possíveis em relação às possibilidades caso a sentença de que apenas o mundo material exista, e de que somos completamente regidos por leis físicas determinísticas.

Implicações da segunda idéia

A segunda possível resposta da nossa questão nos diz respeito principalmente à liberdade de nossas atitudes e escolhas. Ela afirma que o determinismo visto na natureza, não rege nossos pensamentos, afirma que nossas escolhas são livres e não são subjugadas pela lei da causalidade, de causa e efeito.

Bom, à meu ver, para que esta afirmação seja verdade, é absolutamente necessário que haja algo de sobrenatural em nós (chamem isto de alma ou seja lá o quê) para que possamos ter uma escolha livre. Vejamos, nosso cérebro é quem comanda nossas atitudes, nossas escolhas, são nossos pensamentos que nos controlam, baseando-se nisso, sabemos que para que uma escolha seja livre, é absolutamente necessário que em nosso cérebro aconteça algo de sobrenatural, algo de metafísico, um efeito sem causa, algo que viole a lei da causalidade, do contrário, seria uma atitude determinista e regida por causa e efeito.

Acredito que foi isto que Descartes quis dizer sobre a função da nossa glândula pineal, no qual citou que possuía funções transcendentais, onde ficaria nossa alma. Descartes também provavelmente deve ter percebido a necessidade da existência de algo metafísico no cérebro para que nossas escolhas possam ser livres, para que possamos ter o que chamamos de livre-arbítrio.

Enfim, caso a segunda resposta à nossa questão seja verdadeira, e caso realmente exista (e ainda não tenha sido encontrada) esta “metafísica cerebral”, as possibilidades para a ciência não são lá muito otimistas quanto às possibilidades da primeira resposta que citamos anteriormente, pois por exemplo, para utilizar a mesma implicação da primeira resposta, não poderiamos criar um cérebro como o nosso, visto que não poderiamos criar nada de metafísico com tecnologia (a menos é claro, que isto mude no futuro).

Algumas conclusões

Como podemos observar, a primeira resposta à nossa questão é extremamente otimista e vantajosa para a ciência, visto que nos abre muitas portas e possibilidades, apesar de ser desvantajosa para nossa liberdade, religião, escolhas, atitudes, pois tudo o que chamamos de livre-arbítrio seria uma ilusão. Já a segunda resposta, seria pessimista para a ciência, visto que implica a existência de uma metafísica que nem sequer conhecemos, entretanto nos causaria um enorme alívio, ao saber que nossas escolhas são livres.

Um fato interessante

Atualmente, tem-se estudado muito, apesar de ser ainda um terreno desconhecido (porém fértil), a física quântica. Sabemos que alguns fenômenos no mundo sub-atômico e atômico não são previstos pela física clássica, ou seja, quebram algumas das nossas conhecidas leis sobre a natureza ao nosso redor. Talvez esta possa ser uma possível resposta ao nosso problema, de que as leis físicas que conhecemos e que são regidas pela lei da causalidade, não se estenda até o mundo sub-atômico, e talvez aí seja onde possívelmente encontraremos um metafísica necessária para dar a liberdade à nossas escolhas.

1 Comment

  1. Gosto muito do seu jeito de pensar, de ver as coisas, de ver o mundo!
    Mas, só uma coisa, não temos livre arbítrio e sim livre agência!
    Temos liberdade para fazermos nossas escolhas no que concerne a nossa vida secular. Pensar, agir, como por exemplo, escolher um ônibus, tomar um outro caminho, escolher um curso, uma profissão…
    Livre arbítrio vai muito além disso, são escolhas as quais não temos acesso, é o que você chamaria de escolhas metafísicas, transcende a nossa vontade, vai muito além do nosso ser. Compreender isso, talvez seja mais complexo que entender os mecanismos que determinam o funcionamento dos algorítmos evolutivos, quando tratam por exemplo de variáveis de uma otimização, já que compreende objetos abstratos…

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